Sessenta e cinco não é um número. É um lugar. Um ponto da estrada onde a gente chega depois de atravessar muita coisa. É quando a vida para na sua frente, te olha nos olhos e pergunta, sem acusar, mas também sem aliviar: “E aí… o que você fez com tudo o que te aconteceu?”
Porque 65 não vem só com lembrança boa. Vem com custo. Vem com quedas que ninguém viu, com recomeços que ninguém aplaudiu, com portas fechadas sem explicação, com contas atrasadas que te fazem engolir o orgulho em silêncio. Vem com aquela noite em que você deita, apaga a luz… e o sono não vem. A dúvida senta na beira da cama. E ali você entende algo que ninguém te ensina cedo: coragem não é não ter medo. Coragem é seguir mesmo quando o medo está gritando.
Eu comecei como vendedor. Daqueles que carregavam pasta, sonhos e boletos no mesmo bolso. Daqueles que ouviram “não” tantas vezes que quase aprenderam a respirar rejeição. Teve dia em que eu voltei para casa cansado demais para reclamar. Teve dia em que a esperança era pequena, mas era tudo o que eu tinha. E mesmo assim, no dia seguinte, eu colocava a camisa de novo, saía para a rua e apostava outra vez em algo que ninguém pode vender nem comprar: a possibilidade de dar certo.
Vendas ensinam cedo uma verdade dura: ninguém nasce pronto. Ou você se constrói. Ou você se perde no caminho. E eu escolhi me construir. Não foi rápido. Não foi fácil. E definitivamente não foi barato. Foram muitos livros, muitos cursos, pós-graduação, MBA, mestrado e muito mais do que isso, horas de estudo quando ninguém estava vendo. Porque em vendas existe algo quase matemático: quanto mais você estuda, mais você entende. Quanto mais você entende, melhor você decide. Quanto melhor você decide, mais resultado você gera. É incrível como o conhecimento transforma a mente. E quando a mente muda, o jogo muda. O discurso melhora. A estratégia afina. A leitura de cenário fica mais clara. A insegurança diminui. E sim, o bolso sente. O empenho e o conhecimento não só aumentam resultado, eles aumentam patrimônio, previsibilidade e liberdade, de forma exponencial. Não por sorte. Por construção.
Eu me construí assim. Não com frases bonitas, mas com chão, com calo, com erro, com tentativa, com insistência quando já era mais fácil desistir. Com o tempo, virei gestor, diretor, professor de MBA, escritor, palestrante. Falei para milhares de pessoas. E aqui vai algo que poucos esperam ouvir: em cada palestra, quem mais aprendeu fui eu. Porque quando você olha nos olhos de um vendedor cansado, de um líder tentando segurar tudo sozinho, de alguém que só quer uma chance justa, você entende o que realmente move as pessoas. Não é só meta. É dignidade. É orgulho. É sobrevivência. É a vontade de vencer sem se perder de si mesmo.
Foi aí que eu entendi de vez: vender não é empurrar produto. É cuidar de gente. Resultado não nasce de truque, não nasce de frase pronta, não nasce de promessa milagrosa. Resultado nasce de respeito, disciplina, estudo, ética e responsabilidade com a vida do outro. Porque quando você vende, você entra na história de alguém. E isso exige caráter. Exige verdade.
Mas eu errei. Eu falhei. Eu perdi. Teve escolha ruim, teve tropeço feio, teve gente que foi embora, teve coisa que eu queria ter feito diferente e não dá para voltar. Algumas cicatrizes ainda doem. Outras viraram silêncio. E todas, sem exceção, me ensinaram algo que eu demorei para aceitar: meus erros não eram o caminho. Eram paradas. Paradas forçadas para reorganizar a alma, ajustar a rota, entender quem eu não queria mais ser. A vida não te derruba para te humilhar. Ela te derruba para te alinhar.
Quando eu parei de brigar com o passado, algo ficou mais leve. Eu entendi que existe uma diferença enorme entre culpa e responsabilidade. A culpa pesa. A responsabilidade liberta. E foi nesse ponto da estrada que a vida me surpreendeu de um jeito impossível de explicar sem a voz falhar. Eu vi tudo isso virar gente dentro da minha casa.
Dois dos meus filhos escolheram vendas. Não por falta de opção. Não por acaso. Por identidade. A Cláudia começou por um caminho que muita gente chamou de “torto”. Formada em Nutrição, entrou como representante na Nestlé, na área de saúde. Para quem acredita que carreira é linha reta, parecia um desvio. Para quem entende a vida, era só o início da construção. Hoje, ela é diretora de vendas da EGALI Intercâmbio. E não chegou ali por carisma solto ou talento fácil. Chegou porque construiu. A Cláudia transforma conversa em confiança. Empatia alta, presença verdadeira, olho no olho. Ela não coleciona contatos. Ela constrói vínculo. Ela não vence o cliente. Ela conquista. E a conquista dela acontece quando ninguém está vendo, quando não há pressão, quando a decisão nasce no silêncio.
O Eduardo seguiu outro ritmo. Outro tempo. Campeão sul-americano de taekwondo, segundo Dan. Atleta de alto rendimento. Fala pouco, observa muito, treina mais do que fala. Começou como SDR em 2020, virou vendedor júnior, depois vendedor sênior. Dois anos seguidos com o maior resultado do time. Nada de glamour. Só disciplina de atleta aplicada ao funil. Rotina, cadência, execução. Cabeça fria quando todo mundo já está cansado e procurando desculpa. Capacidade rara de sustentar performance quando outros já desistiram por dentro.
Dois estilos diferentes. Dois caminhos distintos. Um mesmo fundamento: identidade verdadeira sustentada por método.
E tem o Enzo. Com 11 anos, ele ainda é promessa. E promessa não se apressa. Duas medalhas de ouro na Olimpíada Canguru, muito forte em matemática e ciência, alta performance em tudo. Mas o que mais me emociona não é o que ele já faz bem. É o que ainda está se formando dentro dele. É como ver um motor potente sendo calibrado, ganhando consciência da própria força, sem pressa, sem atalho. Porque no fim, a pergunta nunca é “no que ele é bom agora”. A pergunta é: em que ele vai decidir colocar essa potência quando a vida exigir escolha. E como pai, eu aprendi que amar também é isso, confiar no que ainda não está pronto.
Depois de mais de quatro décadas de estrada, e de ver isso virar vida dentro da minha própria casa, minha conclusão é simples: vendas não é dom. Vendas é identidade com método. É saber quem você é, treinar isso, aprimorar, sustentar. É transformar empatia em processo, disciplina em previsibilidade, talento em rotina. Porque o mercado não contrata carisma. O mercado contrata resultado. E resultado, no longo prazo, sempre nasce do mesmo lugar: gente que não desistiu.
Hoje eu faço 65. Não me sinto no fim. Me sinto no ponto mais honesto da jornada. Menos vaidade. Mais verdade. Menos pose. Mais presença. Grato pelo que deu certo. E até pelo que doeu. Porque foi isso que me lapidou. Foi isso que me trouxe até aqui. Valeu cada “não”. Valeu cada queda. Valeu cada recomeço. É difícil. Dói. Cansa. Mas vale a pena.
E se eu tivesse que deixar uma frase para quem está atravessando agora, seria essa: se ele atravessou tudo isso e chegou aqui, eu também posso. Eu nunca desisti, mesmo quando foi muito, muito difícil. E parei de procurar culpados. Porque a vida não melhora quando a culpa encontra um alvo. A vida melhora quando a coragem encontra um dono.
Cláudio Tomanini