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O BRASIL EM K – TOMANINI

Tem empresário escolhendo o mármore da próxima loja. Tem empresário escolhendo qual conta vai atrasar. Os dois trabalham no Brasil.

Em agosto de 2026, Casas Bahia e Marabraz pediram recuperação judicial. Em junho, o universo acompanhado pelo Monitor RGF-Bizdoc já reunia 6.341 empresas nessa situação. Recuperação é uma tentativa de evitar a falência, mas revela a gravidade do aperto.

No Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, as vendas cresceram 18,8% em 2025, e a ocupação terminou o ano em 100%. O empreendimento anunciou ampliações de lojas de luxo para 2026. Enquanto parte do comércio negocia tempo para pagar, outro pedaço do mercado negocia espaço para crescer.

Quem olhar apenas uma dessas vitrines vai entender o Brasil pela metade.

Esse problema atravessa pelo menos três governos. Em 2018, no governo Temer, houve 1.408 pedidos de recuperação judicial. No governo Bolsonaro, foram 1.387 em 2019 e 833 em 2022. No atual governo Lula, o número subiu para 1.405 em 2023 e 2.273 em 2024, recorde da série da Serasa Experian até então. Aqui estamos comparando pedidos novos em cada ano, e não o total de empresas ainda em recuperação.

Sim, no governo anterior havia menos pedidos, e os números caíram durante aquele mandato. O problema já existia, e a deterioração posterior tem várias causas. O calendário identifica quando aconteceu; sozinho, não explica por quê. Transformar uma crise empresarial em torcida eleitoral ajuda pouco quem precisa pagar a folha na sexta-feira.

Do outro lado, as estimativas para o mercado de luxo passaram de R$ 41 bilhões em 2018 para R$ 78 bilhões em 2022 e R$ 98 bilhões em 2024. A expansão desse mercado também atravessou governos.

A imagem do Brasil em K ajuda a explicar esse contraste. Uma ponta encontra condições para avançar. Outra enfrenta crédito caro e dificuldade para sustentar a operação. Essa é uma leitura de trajetórias diferentes dentro da economia, não uma sentença de que todo rico prospera e todo trabalhador empobrece.

Aliás, a renda média real aumentou em 2025. Reconhecer isso é necessário. A melhora da renda pode conviver com empresas endividadas, famílias sem folga no orçamento e setores inteiros sob pressão. Uma média nacional não paga o boleto de ninguém.

Com a taxa básica de juros em 14% ao ano, vender uma geladeira parcelada exige uma conta muito diferente de vender uma bolsa à vista. O lojista financia estoque, assume risco e espera receber. O consumidor calcula se a prestação cabe no salário. Quem tem dinheiro aplicado pode receber mais em certas aplicações, enquanto quem depende de empréstimo enfrenta um custo maior. Os efeitos são diferentes, embora nenhum setor esteja imune.

Os juros ajudam a combater a inflação, que também castiga quem ganha menos. A saída exige condições para reduzi-los com consistência: contas públicas confiáveis, inflação controlada e mais produtividade. E, dentro das empresas, exige gestão. Expansão mal calculada, estoque parado e desconto sem critério também destroem caixa. Nem toda dificuldade nasceu em Brasília.

E o que pode acontecer entre 2027 e 2029?

Minha leitura é que, se o crédito continuar caro e as dívidas consumirem o caixa, veremos mais concentração em segmentos do varejo. Empresas com recursos poderão comprar operações fragilizadas, negociar melhor com fornecedores e ocupar espaços deixados por concorrentes. O pequeno negócio ficará ainda mais dependente de conhecer seu cliente e operar com precisão.

O aperto também pode empurrar mais consumidores para produtos básicos, marcas mais baratas e compras adiadas. No extremo de maior renda, experiências e serviços exclusivos podem continuar encontrando compradores. A projeção para o luxo chegar a até R$ 150 bilhões em 2030 mostra o potencial desse mercado, sem garantir que o restante da economia acompanhe.

Existe um caminho melhor para esses três anos. Se a inflação ceder, os juros puderem cair de forma duradoura e a renda continuar avançando, o consumo mais amplo poderá recuperar fôlego. Por isso, trato a abertura desse K como um risco a enfrentar. O futuro depende de decisões que ainda serão tomadas.

Para o empresário, esperar a economia melhorar não pode ser o plano inteiro. É hora de acompanhar o caixa, saber quanto sobra em cada venda, ajustar estoque e recuperar clientes. Treinar a equipe para vender valor também protege o negócio da tentação de dar desconto até desaparecer a margem.

Depois de mais de 35 anos em vendas, uma coisa continua clara para mim: a meta precisa caber na realidade do cliente e deixar resultado para a empresa.

O Brasil precisa de prosperidade que chegue ao balcão, ao salário e à capacidade de investir. Uma vitrine sofisticada é bem-vinda. Milhares de empresas saudáveis também precisam fazer parte dessa fotografia.

Porque um país onde a bolsa de luxo cabe no orçamento, mas a geladeira não cabe na prestação, ainda tem muita conta para acertar.

O próximo ano já está chegando. Prepare sua empresa, sua equipe e suas escolhas. Eu, particularmente, quero começar com o pé direito.

Mas aprendi que ninguém vai longe apoiado num pé só. Para caminhar, o Brasil precisa de equilíbrio, responsabilidade e respeito por quem pensa diferente. Afinal, a direção que escolhemos precisa levar o país inteiro adiante.

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